24 julho, 2015

querer

eu parecia bem. eu estava seguro. não mergulharia.
foi quando desejei ser amado. eu queria vivê-lo. queria respirá-lo. 
eu o queria em meu ventre, entranhado.
eu o queria amarrado, suado, rasgado, arfado.
eu o queria em cada canto dos meus cantos.
eu o queria cantado.
encantado.

eu fui perdendo o controle em minutos. ele me falava de seus outros homens e eu engolia as fantasias que desciam espinhadas pela minha garganta. 
nunca compreendi o porquê.
ele me perguntou o que se passava.
eu nunca fui bom com palavras, meu bem.
ele estava se alistando para tomar conta de mim. 

eu não poderia permitir. ele me disse não tenha medo. eu fiquei fodido de medo. 

23 julho, 2015

aquele cara

eu lembro daquela época como se fosse ontem.
eu havia conhecido Maurício há um mês.
ele me interessara, mas eu tinha certeza de que ele não era o cara. essas coisas que a gente sempre ignora.

quando parei naqueles braços, ele me trouxe o movimento.
eu estava cansado e fodido. cheio de fumaça tosse pergunta problema despacho. carregava o mundo nas costas mais uma vez.
então ele trouxe a leveza.
foram cinco dias e quatro noites. ele se dizia nas brechas e meu eu predador caçava seu olhar. eu o via desenrolar e contava cada minuto para fitá-lo. era a melhor parte. eu mergulhava em seus olhos e lá me perdia ao desvendar seus sorrisos.
ele almava a graça.
seu toque áspero irreconhecível só calafriava ainda mais meus poros.
naquele dia outonou no inverno. e eu fui vivendo de neologismos. não tinha mais vocabulários pra ele.

Maurício me entrelaçou em suas pernas apertou forte e eu só desejei ser sufocado. seu cheiro nunca mais saiu de mim.

22 junho, 2015

soco no estômago

no bilhete, os mais variados elogios:

"arrogante hipócrita filha da puta mimada do caralho. invejosa julgadora babaquinha moralista que tem raiva de tudo que no fundo da alma sempre desejou. você mente. você é uma mentira. você é a mentira.
que merda de imagem de mulher perfeita é essa que você quer passar? VOCÊ NÃO PODE BANCAR ISSO. vive, porra! sai de cima do muro, vive e para de olhar pro lado, assume seus erros e seus desejos, para de querer ser perfeitinha engomadinha amor da vida melhor do mundo incomparável insubstituível porque VOCÊ NÃO É. existem muitos e muitas iguais a você. você é só mais uma que até tem sua presença, mas o mundo não é seu. 

entre mim e você é amor e ódio, você sabe. talvez isso não vá mudar."

04 junho, 2015

do amor

pedrinhas e glossários
relicários
olha a lua como tá bonita
troca o livro
vive o nada
faz um frio
fica um tico
fica mais um pouco
fica até amanhã
dorme em mim
me vive
repete
repete tudo outra vez
eu vou com você
eu vou até o fim
eu vou voando
eu vou
voando

01 junho, 2015

eu sempre quis dizer isso
ai que vida boa ô lele
ai que vida boa ô lala

22 maio, 2015

chumbo trocado não dói

André grita comigo.
me bate me arranha me puxa o cabelo
eu nem ligo
ele entra em êxtase e eu sou a sensatez
alguém precisa olhar o cachorro amarrado no poste
ele vai correndo
eu engatinho

01 maio, 2015

sabichão

ele sabe ser um idiota como ninguém. ele sabe. ele sabe ser um babaca prepotente grosseirão e acha que pode vir fazer e acontecer e que todos têm de vir a ele e que o mundo gira em torno dele e que ele é o dono da razão e de toda a cartela de cores de sentimentos. ele não é o dono da dor. ele não é o dono da raiva. ele não é o dono da angústia, do inconformismo.
ele vê mas não enxerga, ele age e não pensa, ele cala e não mede, ele faz e não crê. ele faz que não entende.
meu caro, veste sua carapuça de camurça que lá no cartório sobrou uma culpa pra você também.

26 abril, 2015

quinze horas

oito horas.
céu e chuva e um guarda-chuva a guardar minhas lembranças.
o sapato molhado é o menor dos calafrios.
vem silêncio, vai afago.

mais uma vez oito horas.
o luar fez-se sol.
o tempo dita o pensamento.
olhares de soslaio atropelados,
guimbas ansiosas por todo lado.
tomo estrelas no café da manhã.
meu dia tem quinze horas.

24 abril, 2015

céu

"só mais três minutos, eu não disse. desejei a escada sem fim e não quis que se fosse nunca mais. tendo a prolongar. e mudar o tempo. ele corre ali. eu me senti impotente e cru, não sabia por onde começar. menino. é muito medo. fui dois. fui milhares. fui e voltei e fui e estou de volta dando voltas nas ondulações e desenhos. na pele branca. no rubor. como é. sintonia e sinfonias que a gente não reconhece, palavras favoritas. fui lua, fui céu. fui."

21 abril, 2015

papel amassado

"Dora pode ter sido a chave que deixei cair pelo ralo. algemado fiquei. talvez ela não tivesse acrescentado muito na minha vida material, tenho uma certa certeza disso. ela nunca quis muito com o mundo. mas parte de mim ficou lá com ela. uma parte que eu precisava descobrir. que merda! eu só precisava dessa parte para seguir meu caminho. não de Dora, mas do pedaço." 

ele havia escrito isso numa folha de papel amassado, com um pedaço de lápis carcomido que havia na bolsa. ele ficou se perguntando sobre a vida. tempo voou e Dora ele viu. porra nenhuma, meu caro, porra nenhuma. o pedaço não está em lugar nenhum senão nele mesmo. é muito fácil depositar responsabilidades.

19 abril, 2015

mar

peixe nada peixe anda peixe vive peixe bóia peixe erra peixe gosta peixe acorda peixe ama peixe quer peixe tem medo peixe vem peixe voa peixe nada peixe nada nada peixe não hesita peixe chora peixe afaga não afoga e peixe vazio o pensamento peixe nesse mar peixe.

12 abril, 2015

queria pontuar que algumas coisas não precisam de pontuação

11 abril, 2015

agora sim

adoro mudar o tempo

10 abril, 2015

vazio


01 abril, 2015

é mentira

eu ainda estou muito longe de descobrir respostas. isso é complicado...
talvez precisássemos de um tempo até você entender o que se passa comigo.
acho que criamos muitas verdades absolutas. não é bem assim. eu não sou quem você conhece. não sou tão perturbada! mas algo me prende cá dentro, que não me deixa me achar. há uma mulher dormindo aqui. por fora, menina. muito sensata, mas que mal sabe o que faz. ela sempre foi muito paradoxal. open your mind, little girl.
preciso escrever para Augusta. e preciso de respostas.

escrevo, percebo alguém atrás de mim bisbilhotando. percebo uma, duas, três vezes. sou sempre eu, tentando descobrir meus segredos.