12 maio, 2017

fim de tarde

abro o livro sem querer
o segundo inseto pousa na página
meu coração bate forte de balançar
o bêbado de voz grave sussurra que não sabe jogar bola
que pelé era melhor que garrincha
"mais maneiro é quem ta na zona sul"

ele vai embora
eu fico
nada faz sentido.

12 abril, 2017

aflora

na cabeceira da noite há um prato cheio
notas que não tenho ouvido
será que tenho
ou visto
de toda anatomia que me forma nada mais me sobra
eu só quero o que não há mais

me vem cheio
desatado 
plurado
pulsado

me traz amostras
onde me punha a mergulhar
na organicidade
afago
no piscar
duplo
olhar fundo
sem escada
sem sinalização
sem volta

fada sem varinha de condão
eu preciso te gravar
dentro
dentro de mim

adentro me pego
lembro
sereno
terreno
fiz minha casa
morada onde vivo norte
sem abrir janelas
o mar é de vento forte
logo eu

nessa engenharia 
já diz o velho amigo
na paráfrase
dois não sustentam

26 março, 2017

incapaz

intitulei-me capataz
ceifador de meus castelos
um por um
destruídos
por dinamites silenciosas

já não nasce sol no reino
a mariposa cansada
não aguenta mais seu próprio peso
afogada
agora é só fio

quem é a tal?
era uma vez eu
um menino que nunca soube brincar

22 março, 2017

aspirante

como Carolina
incansável sedutora
eu te aspirei como há tempos
sem vírgulas 
sem cabeça
excito
de cima do meu altar das lamentações
eu sou o rei perdido que não quer acordar

seus restos no meu rosto
o gosto inconfundível
atracado
entranhado

não estou de pé
mas ainda vivo
sobrevivo
sem cara pra reviver o final

08 dezembro, 2016

de passagem

ando parado. fiquei muito tempo trancado aqui. aqueles tempos foram difíceis. hoje meu menino me deixa solto, vou e volto despreocupado e já não paro. há tanto a gente não se encontra... eu tive saudades, sabia? imagino que você não. ou sim - mas não precisa admitir. o menino metafórico que fantasia suas realidades hoje nem me consulta mais.
o caminho foi longo e cá estamos sós. quando eu chego é sempre assim. tiro seu sono, sua paz, sua paciência - nos velhos tempos, sua sanidade. eu sempre muito egocêntrico, você sabe. agora aprendi a ir sem mandado. meu eu não admite mais esse ultraje.

ainda será - eu dentro, você fora - como nos últimos anos.
eu vou me acostumar com isso.

25 maio, 2016

era

essa noite eu dormi sem saber
eu cheguei até aqui
engoli seco esse teu tempo
entalado
nos meus olhos
na minha boca
no meu ventre

estala o dedo e nada aqui tem paz
tudo vivo me traz mal
ou não me traz
eu já não sei o que faz

eu fui
fiz
me refiz em meus papeis
e aos prantos
me desenhei sorrindo

era uma vez
mais nada

25 abril, 2016

inerte

eu já perdi as contas de quantas vezes quis estar dentro de você. ser teu motivo de tudo. já perdi a conta de quantas vezes idealizei você. no imaginário sou deusa, fascínio, presente entregue a seu dispor. sou carne na sua, sou cor. sou teu sorriso da manhã que você não vê. você não acorda. e eu desapareço. quantos dedos vou martelar até te ter inteira? ora a água não bate nem no joelho, ora você me transborda. me quero afogada, sempre fui do mar. levezas me estranham mas não quero carregar pesos. paradoxos ainda vão me envenenar.

29 março, 2016

mais uma mentira

eu ia dizer que às vezes rezo a deus pra encontrar Tadeu. seria mais uma das mentiras que eu conto, já não rezo há muito tempo. mas gostaria. eu sempre tive certeza de que não o esqueceria.
era matar ou morrer. não escolhi, mas me deixaram viver. sobrevivi em meio ao pó. ele dorme. vivo, liberto. ele hiberna há anos em mim. já vai para o sexto ano e eu tomo mais de meio litro de café por dia.

esse texto nunca teve fim.

11 fevereiro, 2016

nada consta

não me espere do outro lado da rua
não me espere no ponto ou na esquina
não me espere mais
ou não espere nada

pago prestações de noites intermináveis
juros de esperas sem um retorno
parcelas de um nada recebido
nada consta nessa conta

só um de mim e eu só

11 janeiro, 2016

avoou

eu não vou mentir dizendo que não me arrependi. soprou forte na janela e levou, me levou. e vem varrendo tudo até então. só palavras fotos e uns desenhos nem sei como ainda se aguentam pendurados no espelho. dessa vez você não se pendurou. eu tropeço caio levanto caio de novo e vou só. quem é que vai dizer que nada muda? não há. o que soprou levou o áspero as madrugadas suspiros sufoco e mais uns olhos fechados, maçãs-do-rosto gatos luas e um par de asas. o cheiro do café que não consigo tomar ele levou. minhas vírgulas ele sempre leva. quem? não poderia ser o vento.

03 janeiro, 2016

ecoa

ele me embrulha o estômago, distorce, despenteia, não faz questão. eu sou todo. e dentro de mim sou amor e ódio. em meio a tantos outros que sonho, eu só. sou um rasgo entre mim e o vazio que crio enquanto ele dorme. não sei me fazer entre palavras ditas. amém, diz orgulhoso. chora, afunda no silêncio sufocado que você ecoa. agora não adianta mais acordá-lo. eu tenho medo do escuro, do meu - o pior de todos eles.

08 novembro, 2015

telefonema

eu não fico em paz. leio, mas não te compreendo. André também não gosta: se amo ele não goza não despontua não agoniza não madruga. ele nunca foi homem de abrir os olhos com vontade de acordar. ele sequer foi homem! ele ainda é um menino que não sabe chorar. ele não sabe de tanto... mas vai aprender.
você? acho que você não toma jeito não. tô sentada, esperando o seu milagre. vai que deus existe? ninguém sabe

07 novembro, 2015

não só

essa noite ou dia eu não sei a ordem dos travesseiros mas sonho acordado com seus outros tantos que nem sei se são ou santos
a corda na goela eu mesmo amarro pra não engolir nem vomitar
eu minto e me invento
nem deus sabe se minhas cenas são tangíveis e eu deitado no colchão duro de inverdades soltas amargas claras
verdades envenenadas
amadas

era uma vez um menino que nunca foi menino

05 novembro, 2015

(d)o nada

você sabe, eu não sei mais aparecer. eu sumi. abriu a janela, era uma vez. você deixou ele ir. deixou não, você jogou lá do alto do septuagésimo quarto andar sem dó sem piedade sem pensar em nada sem razão sem consideração e eu tenho vontade de te matar te bater te socar cada vez que você vem até mim com essas gracinhas essas ironias essas formalidades bestas essas provocações essa estupidez de nariz em pé e cara de quem não me conhece e que não se importa e não quer nada e não fala nada afinal eu não sou nada quem sou eu mesmo?

nada foi o que tinha de ser. nada é tudo que sei de você. e também o que eu já posso ser. e o que você pode não fazer. ou onde isso vai dar. pode não ser nada disso. mas eu não posso fazer nada.

21 outubro, 2015

bate asa

vai e volta tempo inteiro
mas não vem acostumar
se vem faz ninho
fica até aconchegar

bate asa passarinho
traz meu riso na viagem
com canto calma afago
mais um tanto de bobagem

com rima pobre rima rica
sem rima ou sem verso
um suspiro e dez centavos

tenho tudo mas não tenho nada
e não preciso de mais nada