14 agosto, 2015

ele é, eu só

mais uma vez éramos eu e ele. como sempre. dormimos e acordamos. não conseguimos sair de casa e passamos a tarde juntos, almoçamos juntos, vimos o tempo passar. ele me desejou felicidades, agradeci. chorei. choramos. ele beijou meu rosto, choramos ainda mais. de soluçar, de sufocar e não inspirar. ele resolveu jogar uma água no corpo ensanguentado pra lavar a alma. eu fui. ele me ensaboou, me fez carinho e me deu um abraço apertado. eu só tenho você. naquele momento éramos um que nunca foram dois. eu não posso mais, André. mas fomos. somos um só e eu só.

12 agosto, 2015

ode

ganhei um vômito de presente e o alter ego de volta. tinha que ser esse puto! tinha que ser e lá vou eu engolindo toda essa merda mais uma vez regurgitando esse veneno espinho que me torce desconcerta e despontua. você ainda insiste em aspirar essa porra desse ar que não te inspira que sufoca maltrata desforma embaraça traça larga disso, caralho! larga desse fogo que te carboniza desse lençol desse uso desse abuso desse engano discurso sem fecho arrego paz sem sossego sem verdade. você não larga. você é comedido e comido. ele faz o que quer e o que não quer. ele te devora. ele devora o mundo e eu passo fome de você.

10 agosto, 2015

no café da manhã

ganhei de presente
coados na água fervente
espinhos pro café da manhã
sem açúcar
sem afeto
sem coragem
café que desce pelo peito
arranhado
socado
amassado
que não se ingere
não se digere
não se faz
isso não se faz

06 agosto, 2015

cafeína

atiça acorda aquece
me faz me traz me paz
e perturba
inquieta
inconstância
amargo retrogosto
ela, cafeína
pela manhã tarde noite
não mais me deixa dormir
quem precisa dormir?
sê cafeína nos meus dias
e me acorda nos teus acordes
me canta
me acalma
me aquece mais uma vez
sê inteira

30 julho, 2015

acidente de percurso

mudou de pé a pé. eu não pude evitar, meu caro. minhas mãos não alcançam volantes, não uso cinto de segurança, não tenho carteira de motorista, meu seguro não cobre a batida. a autoescola tá vencida

29 julho, 2015

o gato voador

o gato voador precisava pousar porque gato não sabe voar. mas há um porém: ele é voador.
ele não sabe o que quer, não sabe o que faz, como todo gato voador.
e todo gato voador é gato, gato que precisa de afago. é bicho bom, bicho leal. bicho manso e bicho arisco. gato voador se enrosca, se fixa. dorme deita arranha lambe pula brinca chora ronrona mia. dona chica não se admira. gato voador não berra se atira pau. ele voa.

o gato voador se aproximava do fogo. ele precisava de calor, como todo gato.
ele também precisava sentir o vento, como todo voador.
mas o vento sopra em quem voa. o vento leva quem voa. o vento apaga o fogo. ou alimenta. tudo depende do vento.

e do gato voador.

24 julho, 2015

querer

eu parecia bem. eu estava seguro. não mergulharia.
foi quando desejei ser amado. eu queria vivê-lo. queria respirá-lo. 
eu o queria em meu ventre, entranhado.
eu o queria amarrado, suado, rasgado, arfado.
eu o queria em cada canto dos meus cantos.
eu o queria cantado.
encantado.

eu fui perdendo o controle em minutos. ele me falava de seus outros homens e eu engolia as fantasias que desciam espinhadas pela minha garganta. 
nunca compreendi o porquê.
ele me perguntou o que se passava.
eu nunca fui bom com palavras, meu bem.
ele estava se alistando para tomar conta de mim. 

eu não poderia permitir. ele me disse não tenha medo. eu fiquei fodido de medo. 

23 julho, 2015

aquele cara

eu lembro daquela época como se fosse ontem.
eu havia conhecido Maurício há um mês.
ele me interessara, mas eu tinha certeza de que ele não era o cara. essas coisas que a gente sempre ignora.

quando parei naqueles braços, ele me trouxe o movimento.
eu estava cansado e fodido. cheio de fumaça tosse pergunta problema despacho. carregava o mundo nas costas mais uma vez.
então ele trouxe a leveza.
foram cinco dias e quatro noites. ele se dizia nas brechas e meu eu predador caçava seu olhar. eu o via desenrolar e contava cada minuto para fitá-lo. era a melhor parte. eu mergulhava em seus olhos e lá me perdia ao desvendar seus sorrisos.
ele almava a graça.
seu toque áspero irreconhecível só calafriava ainda mais meus poros.
naquele dia outonou no inverno. e eu fui vivendo de neologismos. não tinha mais vocabulários pra ele.

Maurício me entrelaçou em suas pernas apertou forte e eu só desejei ser sufocado. seu cheiro nunca mais saiu de mim.

22 junho, 2015

soco no estômago

no bilhete, os mais variados elogios:

"arrogante hipócrita filha da puta mimada do caralho. invejosa julgadora babaquinha moralista que tem raiva de tudo que no fundo da alma sempre desejou. você mente. você é uma mentira. você é a mentira.
que merda de imagem de mulher perfeita é essa que você quer passar? VOCÊ NÃO PODE BANCAR ISSO. vive, porra! sai de cima do muro, vive e para de olhar pro lado, assume seus erros e seus desejos, para de querer ser perfeitinha engomadinha amor da vida melhor do mundo incomparável insubstituível porque VOCÊ NÃO É. existem muitos e muitas iguais a você. você é só mais uma que até tem sua presença, mas o mundo não é seu. 

entre mim e você é amor e ódio, você sabe. talvez isso não vá mudar."

04 junho, 2015

do amor

pedrinhas e glossários
relicários
olha a lua como tá bonita
troca o livro
vive o nada
faz um frio
fica um tico
fica mais um pouco
fica até amanhã
dorme em mim
me vive
repete
repete tudo outra vez
eu vou com você
eu vou até o fim
eu vou voando
eu vou
voando

01 junho, 2015

eu sempre quis dizer isso
ai que vida boa ô lele
ai que vida boa ô lala

22 maio, 2015

chumbo trocado não dói

André grita comigo.
me bate me arranha me puxa o cabelo
eu nem ligo
ele entra em êxtase e eu sou a sensatez
alguém precisa olhar o cachorro amarrado no poste
ele vai correndo
eu engatinho

01 maio, 2015

sabichão

ele sabe ser um idiota como ninguém. ele sabe. ele sabe ser um babaca prepotente grosseirão e acha que pode vir fazer e acontecer e que todos têm de vir a ele e que o mundo gira em torno dele e que ele é o dono da razão e de toda a cartela de cores de sentimentos. ele não é o dono da dor. ele não é o dono da raiva. ele não é o dono da angústia, do inconformismo.
ele vê mas não enxerga, ele age e não pensa, ele cala e não mede, ele faz e não crê. ele faz que não entende.
meu caro, veste sua carapuça de camurça que lá no cartório sobrou uma culpa pra você também.

26 abril, 2015

quinze horas

oito horas.
céu e chuva e um guarda-chuva a guardar minhas lembranças.
o sapato molhado é o menor dos calafrios.
vem silêncio, vai afago.

mais uma vez oito horas.
o luar fez-se sol.
o tempo dita o pensamento.
olhares de soslaio atropelados,
guimbas ansiosas por todo lado.
tomo estrelas no café da manhã.
meu dia tem quinze horas.

24 abril, 2015

céu

"só mais três minutos, eu não disse. desejei a escada sem fim e não quis que se fosse nunca mais. tendo a prolongar. e mudar o tempo. ele corre ali. eu me senti impotente e cru, não sabia por onde começar. menino. é muito medo. fui dois. fui milhares. fui e voltei e fui e estou de volta dando voltas nas ondulações e desenhos. na pele branca. no rubor. como é. sintonia e sinfonias que a gente não reconhece, palavras favoritas. fui lua, fui céu. fui."