21 outubro, 2015

bate asa

vai e volta tempo inteiro
mas não vem acostumar
se vem faz ninho
fica até aconchegar

bate asa passarinho
traz meu riso na viagem
com canto calma afago
mais um tanto de bobagem

com rima pobre rima rica
sem rima ou sem verso
um suspiro e dez centavos

tenho tudo mas não tenho nada
e não preciso de mais nada

04 outubro, 2015

água morna
pedra dura
tanto bate
até que cura

21 setembro, 2015

imperativo

numa carta cortada endiabrada sem sentido escrito o que não devia. eu não quero vê-lo de sorrisos pútridos, você dizia. não minta para mim. costuro minhas pernas. seja o que quiser. impere em meu governo mas respeite seu monarca. não desalinhe não se esqueça não se apaixone não desafie não desapareça não rime não entristeça não se faça em vírgulas não se desfaça não ameaça não hesite não transborde não seja.
entregue-se de mãos vazias. seja meu não liberto inconsequente, sempre quis um de estimação. me deixe dormir com você. trepe com a ilusão. não seja feliz. eu o amo. tudo o que eu quero é te ver sorrir. eu sou instantâneo.

19 setembro, 2015

suspirar

uma vez feito aço
banhado folheado
simplifiquei
enverguei
inteira ao menos uma vez
fui estive foi presente
sou e sei
eu não dava nada por ela
ela não dava nada por mim

18 setembro, 2015

amanhecer

já andei tantos becos
em cantos sem graça
mais do mesmo

parei por aqui pra te ver
danado! era só pra ver
mas sorriu nos meus olhos
me alcançou
e deixei me perder sem consentimento
fui de carona no encanto de sua apatia
pra sentir além
sem ver aquém

30 agosto, 2015

picadeiro

tecido entrelaça o acrobata estrangula o ventre e cada músculo que o faz. como ele faz. faz e desfaz. se aperta, afrouxa a dor. e se dosa na dose. não se estrangula não, rapaz.
faz-se o truque.
faz-se a mágica.
movimenta.
bamboleia na corda bamba, antes fosse arame!
faz-se o suspense. atira-se as facas.
faz-se a graça. deixa sem graça.
entre cheios e vazios, não há espaço para o palhaço.

14 agosto, 2015

ele é, eu só

mais uma vez éramos eu e ele. como sempre. dormimos e acordamos. não conseguimos sair de casa e passamos a tarde juntos, almoçamos juntos, vimos o tempo passar. ele me desejou felicidades, agradeci. chorei. choramos. ele beijou meu rosto, choramos ainda mais. de soluçar, de sufocar e não inspirar. ele resolveu jogar uma água no corpo ensanguentado pra lavar a alma. eu fui. ele me ensaboou, me fez carinho e me deu um abraço apertado. eu só tenho você. naquele momento éramos um que nunca foram dois. eu não posso mais, André. mas fomos. somos um só e eu só.

12 agosto, 2015

ode

ganhei um vômito de presente e o alter ego de volta. tinha que ser esse puto! tinha que ser e lá vou eu engolindo toda essa merda mais uma vez regurgitando esse veneno espinho que me torce desconcerta e despontua. você ainda insiste em aspirar essa porra desse ar que não te inspira que sufoca maltrata desforma embaraça traça larga disso, caralho! larga desse fogo que te carboniza desse lençol desse uso desse abuso desse engano discurso sem fecho arrego paz sem sossego sem verdade. você não larga. você é comedido e comido. ele faz o que quer e o que não quer. ele te devora. ele devora o mundo e eu passo fome de você.

10 agosto, 2015

no café da manhã

ganhei de presente
coados na água fervente
espinhos pro café da manhã
sem açúcar
sem afeto
sem coragem
café que desce pelo peito
arranhado
socado
amassado
que não se ingere
não se digere
não se faz
isso não se faz

06 agosto, 2015

cafeína

atiça acorda aquece
me faz me traz me paz
e perturba
inquieta
inconstância
amargo retrogosto
ela, cafeína
pela manhã tarde noite
não mais me deixa dormir
quem precisa dormir?
sê cafeína nos meus dias
e me acorda nos teus acordes
me canta
me acalma
me aquece mais uma vez
sê inteira

30 julho, 2015

acidente de percurso

mudou de pé a pé. eu não pude evitar, meu caro. minhas mãos não alcançam volantes, não uso cinto de segurança, não tenho carteira de motorista, meu seguro não cobre a batida. a autoescola tá vencida

29 julho, 2015

o gato voador

o gato voador precisava pousar porque gato não sabe voar. mas há um porém: ele é voador.
ele não sabe o que quer, não sabe o que faz, como todo gato voador.
e todo gato voador é gato, gato que precisa de afago. é bicho bom, bicho leal. bicho manso e bicho arisco. gato voador se enrosca, se fixa. dorme deita arranha lambe pula brinca chora ronrona mia. dona chica não se admira. gato voador não berra se atira pau. ele voa.

o gato voador se aproximava do fogo. ele precisava de calor, como todo gato.
ele também precisava sentir o vento, como todo voador.
mas o vento sopra em quem voa. o vento leva quem voa. o vento apaga o fogo. ou alimenta. tudo depende do vento.

e do gato voador.

24 julho, 2015

querer

eu parecia bem. eu estava seguro. não mergulharia.
foi quando desejei ser amado. eu queria vivê-lo. queria respirá-lo. 
eu o queria em meu ventre, entranhado.
eu o queria amarrado, suado, rasgado, arfado.
eu o queria em cada canto dos meus cantos.
eu o queria cantado.
encantado.

eu fui perdendo o controle em minutos. ele me falava de seus outros homens e eu engolia as fantasias que desciam espinhadas pela minha garganta. 
nunca compreendi o porquê.
ele me perguntou o que se passava.
eu nunca fui bom com palavras, meu bem.
ele estava se alistando para tomar conta de mim. 

eu não poderia permitir. ele me disse não tenha medo. eu fiquei fodido de medo. 

23 julho, 2015

aquele cara

eu lembro daquela época como se fosse ontem.
eu havia conhecido Maurício há um mês.
ele me interessara, mas eu tinha certeza de que ele não era o cara. essas coisas que a gente sempre ignora.

quando parei naqueles braços, ele me trouxe o movimento.
eu estava cansado e fodido. cheio de fumaça tosse pergunta problema despacho. carregava o mundo nas costas mais uma vez.
então ele trouxe a leveza.
foram cinco dias e quatro noites. ele se dizia nas brechas e meu eu predador caçava seu olhar. eu o via desenrolar e contava cada minuto para fitá-lo. era a melhor parte. eu mergulhava em seus olhos e lá me perdia ao desvendar seus sorrisos.
ele almava a graça.
seu toque áspero irreconhecível só calafriava ainda mais meus poros.
naquele dia outonou no inverno. e eu fui vivendo de neologismos. não tinha mais vocabulários pra ele.

Maurício me entrelaçou em suas pernas apertou forte e eu só desejei ser sufocado. seu cheiro nunca mais saiu de mim.

22 junho, 2015

soco no estômago

no bilhete, os mais variados elogios:

"arrogante hipócrita filha da puta mimada do caralho. invejosa julgadora babaquinha moralista que tem raiva de tudo que no fundo da alma sempre desejou. você mente. você é uma mentira. você é a mentira.
que merda de imagem de mulher perfeita é essa que você quer passar? VOCÊ NÃO PODE BANCAR ISSO. vive, porra! sai de cima do muro, vive e para de olhar pro lado, assume seus erros e seus desejos, para de querer ser perfeitinha engomadinha amor da vida melhor do mundo incomparável insubstituível porque VOCÊ NÃO É. existem muitos e muitas iguais a você. você é só mais uma que até tem sua presença, mas o mundo não é seu. 

entre mim e você é amor e ódio, você sabe. talvez isso não vá mudar."