11 janeiro, 2016

avoou

eu não vou mentir dizendo que não me arrependi. soprou forte na janela e levou, me levou. e vem varrendo tudo até então. só palavras fotos e uns desenhos nem sei como ainda se aguentam pendurados no espelho. dessa vez você não se pendurou. eu tropeço caio levanto caio de novo e vou só. quem é que vai dizer que nada muda? não há. o que soprou levou o áspero as madrugadas suspiros sufoco e mais uns olhos fechados, maçãs-do-rosto gatos luas e um par de asas. o cheiro do café que não consigo tomar ele levou. minhas vírgulas ele sempre leva. quem? não poderia ser o vento.

03 janeiro, 2016

ecoa

ele me embrulha o estômago, distorce, despenteia, não faz questão. eu sou todo. e dentro de mim sou amor e ódio. em meio a tantos outros que sonho, eu só. sou um rasgo entre mim e o vazio que crio enquanto ele dorme. não sei me fazer entre palavras ditas. amém, diz orgulhoso. chora, afunda no silêncio sufocado que você ecoa. agora não adianta mais acordá-lo. eu tenho medo do escuro, do meu - o pior de todos eles.

08 novembro, 2015

telefonema

eu não fico em paz. leio, mas não te compreendo. André também não gosta: se amo ele não goza não despontua não agoniza não madruga. ele nunca foi homem de abrir os olhos com vontade de acordar. ele sequer foi homem! ele ainda é um menino que não sabe chorar. ele não sabe de tanto... mas vai aprender.
você? acho que você não toma jeito não. tô sentada, esperando o seu milagre. vai que deus existe? ninguém sabe

07 novembro, 2015

não só

essa noite ou dia eu não sei a ordem dos travesseiros mas sonho acordado com seus outros tantos que nem sei se são ou santos
a corda na goela eu mesmo amarro pra não engolir nem vomitar
eu minto e me invento
nem deus sabe se minhas cenas são tangíveis e eu deitado no colchão duro de inverdades soltas amargas claras
verdades envenenadas
amadas

era uma vez um menino que nunca foi menino

05 novembro, 2015

(d)o nada

você sabe, eu não sei mais aparecer. eu sumi. abriu a janela, era uma vez. você deixou ele ir. deixou não, você jogou lá do alto do septuagésimo quarto andar sem dó sem piedade sem pensar em nada sem razão sem consideração e eu tenho vontade de te matar te bater te socar cada vez que você vem até mim com essas gracinhas essas ironias essas formalidades bestas essas provocações essa estupidez de nariz em pé e cara de quem não me conhece e que não se importa e não quer nada e não fala nada afinal eu não sou nada quem sou eu mesmo?

nada foi o que tinha de ser. nada é tudo que sei de você. e também o que eu já posso ser. e o que você pode não fazer. ou onde isso vai dar. pode não ser nada disso. mas eu não posso fazer nada.

21 outubro, 2015

bate asa

vai e volta tempo inteiro
mas não vem acostumar
se vem faz ninho
fica até aconchegar

bate asa passarinho
traz meu riso na viagem
com canto calma afago
mais um tanto de bobagem

com rima pobre rima rica
sem rima ou sem verso
um suspiro e dez centavos

tenho tudo mas não tenho nada
e não preciso de mais nada

04 outubro, 2015

água morna
pedra dura
tanto bate
até que cura

21 setembro, 2015

imperativo

numa carta cortada endiabrada sem sentido escrito o que não devia. eu não quero vê-lo de sorrisos pútridos, você dizia. não minta para mim. costuro minhas pernas. seja o que quiser. impere em meu governo mas respeite seu monarca. não desalinhe não se esqueça não se apaixone não desafie não desapareça não rime não entristeça não se faça em vírgulas não se desfaça não ameaça não hesite não transborde não seja.
entregue-se de mãos vazias. seja meu não liberto inconsequente, sempre quis um de estimação. me deixe dormir com você. trepe com a ilusão. não seja feliz. eu o amo. tudo o que eu quero é te ver sorrir. eu sou instantâneo.

19 setembro, 2015

suspirar

uma vez feito aço
banhado folheado
simplifiquei
enverguei
inteira ao menos uma vez
fui estive foi presente
sou e sei
eu não dava nada por ela
ela não dava nada por mim

18 setembro, 2015

amanhecer

já andei tantos becos
em cantos sem graça
mais do mesmo

parei por aqui pra te ver
danado! era só pra ver
mas sorriu nos meus olhos
me alcançou
e deixei me perder sem consentimento
fui de carona no encanto de sua apatia
pra sentir além
sem ver aquém

30 agosto, 2015

picadeiro

tecido entrelaça o acrobata estrangula o ventre e cada músculo que o faz. como ele faz. faz e desfaz. se aperta, afrouxa a dor. e se dosa na dose. não se estrangula não, rapaz.
faz-se o truque.
faz-se a mágica.
movimenta.
bamboleia na corda bamba, antes fosse arame!
faz-se o suspense. atira-se as facas.
faz-se a graça. deixa sem graça.
entre cheios e vazios, não há espaço para o palhaço.

14 agosto, 2015

ele é, eu só

mais uma vez éramos eu e ele. como sempre. dormimos e acordamos. não conseguimos sair de casa e passamos a tarde juntos, almoçamos juntos, vimos o tempo passar. ele me desejou felicidades, agradeci. chorei. choramos. ele beijou meu rosto, choramos ainda mais. de soluçar, de sufocar e não inspirar. ele resolveu jogar uma água no corpo ensanguentado pra lavar a alma. eu fui. ele me ensaboou, me fez carinho e me deu um abraço apertado. eu só tenho você. naquele momento éramos um que nunca foram dois. eu não posso mais, André. mas fomos. somos um só e eu só.

12 agosto, 2015

ode

ganhei um vômito de presente e o alter ego de volta. tinha que ser esse puto! tinha que ser e lá vou eu engolindo toda essa merda mais uma vez regurgitando esse veneno espinho que me torce desconcerta e despontua. você ainda insiste em aspirar essa porra desse ar que não te inspira que sufoca maltrata desforma embaraça traça larga disso, caralho! larga desse fogo que te carboniza desse lençol desse uso desse abuso desse engano discurso sem fecho arrego paz sem sossego sem verdade. você não larga. você é comedido e comido. ele faz o que quer e o que não quer. ele te devora. ele devora o mundo e eu passo fome de você.

10 agosto, 2015

no café da manhã

ganhei de presente
coados na água fervente
espinhos pro café da manhã
sem açúcar
sem afeto
sem coragem
café que desce pelo peito
arranhado
socado
amassado
que não se ingere
não se digere
não se faz
isso não se faz

06 agosto, 2015

cafeína

atiça acorda aquece
me faz me traz me paz
e perturba
inquieta
inconstância
amargo retrogosto
ela, cafeína
pela manhã tarde noite
não mais me deixa dormir
quem precisa dormir?
sê cafeína nos meus dias
e me acorda nos teus acordes
me canta
me acalma
me aquece mais uma vez
sê inteira